Como a psicanálise de alta complexidade contribui para líderes e CEOs de grandes organizações

por Yvie Nunes

A liderança contemporânea opera em um campo paradoxal: exige clareza, decisão e performance contínua, ao mesmo tempo em que submete o sujeito a níveis inéditos de pressão psíquica, solidão decisória e responsabilização simbólica. Nesse contexto, a psicanálise de alta complexidade não se apresenta como ferramenta de aprimoramento, mas como espaço ético de sustentação subjetiva.

Diferentemente das abordagens que prometem eficiência emocional, inteligência relacional ou equilíbrio permanente, a psicanálise de alta complexidade parte de um ponto menos confortável: líderes não adoecem apenas por excesso de trabalho, mas pela posição que ocupam. A função de liderança produz efeitos subjetivos específicos — muitas vezes silenciosos — que não se organizam em sintomas evidentes.

CEOs e executivos de alta hierarquia raramente chegam à análise em crise aberta. Chegam funcionando. Decidindo. Entregando resultados. O sofrimento, nesses casos, não se manifesta como falha, mas como custo. Um custo psíquico que se traduz em endurecimento, isolamento, empobrecimento do laço e, em certos casos, numa relação cada vez mais instrumental consigo e com os outros.

A psicanálise de alta complexidade é convocada justamente quando não há um “problema” claramente formulado. Quando o sujeito não busca respostas, mas um espaço onde não precise sustentar, o tempo todo, a posição de quem sabe, decide e responde. Trata-se de uma clínica que reconhece que, quanto mais alta a função, mais restrito tende a ser o espaço de fala.

Nesse cenário, o trabalho analítico não visa tornar o líder mais produtivo ou mais adaptado. Seu efeito é outro: permitir que o sujeito não coincida integralmente com o cargo que ocupa. Essa separação — sutil, mas fundamental — pode ser decisiva para a manutenção da saúde mental, da capacidade de decisão e da responsabilidade ética no exercício do poder.

Falar em alta complexidade, aqui, não é falar de patologia, mas de posição subjetiva. Liderar implica operar com o impossível: decidir sem garantias, sustentar perdas, lidar com o impacto humano de escolhas estratégicas. A psicanálise não oferece soluções para esse impasse estrutural, mas cria condições para que ele não seja recalcado, negado ou atuado de forma destrutiva.

Em tempos em que o discurso empresarial tende a capturar o sofrimento sob a lógica da performance emocional, a psicanálise mantém um lugar raro: aquele em que o sujeito pode existir para além da função. Não para abandoná-la, mas para habitá-la com menos sacrifício psíquico.

Talvez seja esse o principal aporte da psicanálise de alta complexidade ao mundo corporativo: não formar líderes ideais, mas sustentar sujeitos possíveis.

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