“A IA nos obriga a repensar nosso papel, e a universidade é o espaço ideal para promover essa discussão”
Assim como a IA, o Instituto Behring de Inteligência Artificial já é realidade. Anunciado no fim de 2024 pelo Reitor da PUC-Rio, Padre Anderson Antonio Pedroso, S.J., o projeto saiu do papel na velocidade adequada aos novos tempos. Sua grade curricular está estruturada, e a Universidade, preparada para receber a turma de estreia no segundo semestre deste ano.
Pioneiro no Rio, o bacharelado em Inteligência Artificial alia uma abordagem multidisciplinar e humanística a uma base técnico-científica, explica o diretor do Instituto, Renato Cerqueira, que recebeu a equipe do PUC Urgente para falar sobre a importância da iniciativa, seus impactos acadêmicos e profissionais e os rumos da inteligência artificial.
“A tecnologia, por si só, não carrega uma natureza boa ou má – ela adquire o poder que lhe damos, dependendo de como escolhemos usá-la. E é por isso que é fundamental integrar diferentes perspectivas epistemológicas para lidar com os problemas urgentes que enfrentamos hoje”, afirma o engenheiro de computação formado pela PUC-Rio, com mestrado e doutorado pela Universidade.
Prata da casa, o carioca de 54 anos lecionou por dez anos na PUC-Rio, até 2011, quando ingressou na IBM Research, para trabalhar com pesquisa aplicada em inteligência artificial nos mais diferentes segmentos. Agora, 14 anos depois, a experiência adquirida no mercado retorna à Universidade por meio do Instituto Behring, cujo foco é a formação de profissionais com pensamento crítico e liderança, munidos de uma visão estratégica para gerar impacto social em um mercado ágil e global:
“Hoje, estou muito mais preocupado com a inteligência natural do que com a inteligência artificial. A IA nos obriga a repensar nosso papel, e a universidade é o espaço ideal para promover essa discussão, com a urgência e a profundidade que o momento exige”, enfatiza Cerqueira.
Além do ensino, o Instituto vai oferecer braços de pesquisa, desenvolvimento e inovação. O curso de graduação permite uma transição integrada para a pós-graduação, por meio de disciplinas optativas avançadas que aceleram esse caminho. A infraestrutura laboratorial contará com tecnologias de ponta e espaços colaborativos em um polo dedicado à pesquisa de fronteira e à inovação em IA, que tem a missão de desenvolver soluções alinhadas às realidades e necessidades sociais brasileiras e globais. O Instituto terá um prédio no campus, o Edifício Behring, previsto para ser inaugurado em cerca de dois anos.
Qual o propósito do Instituto Behring de Inteligência Artificial?
Vamos atuar nas áreas de ensino, pesquisa, desenvolvimento e inovação. Estamos apenas começando, e a primeira iniciativa, mais avançada, é voltada para o ensino, com foco na graduação, que já começa no segundo semestre deste ano.
Ao pensar no Instituto, refletimos sobre qual seria a sua missão dentro de uma universidade, seja no desenvolvimento de novas tecnologias baseadas em inteligência artificial, seja no estudo da aplicação dessa tecnologia e seu impacto na comunicação e nas profissões. O objetivo é criar um espaço dentro da Universidade que fomente discussões interdisciplinares, incentivando os departamentos a incorporar a inteligência artificial, seja como um objeto de estudo em alguns cursos, seja como uma ferramenta de trabalho, que muda a natureza das profissões. Se não tomarmos essa posição, seremos atropelados pelas mudanças.
Como está estruturado o currículo do curso?
O currículo do curso de Inteligência Artificial é estruturado em quatro eixos complementares: o primeiro é o Conhecimento Técnico-Científico em IA; temos ainda o pilar Humanístico, que estende as matérias tradicionais de humanidades com disciplinas criadas para o curso, como “IA e a Sociedade”, “Filosofia da Tecnologia”, “Introdução à IA Centrada no Humano”; um terceiro eixo é o de Habilidades Interpessoais e Liderança e, por fim, o pilar de Inovação e Empreendedorismo. Além desses, o eixo de Orientação e Construção de Trajetória apoia cada estudante na definição do seu percurso acadêmico e profissional.
É, portanto, uma composição multidisciplinar?
O Instituto precisa levar em conta as ciências integradas, ou seja, as ciências exatas, as ciências da natureza e as ciências humanas. Somos parte desse sistema. Se não nos posicionarmos dentro dele, a conta simplesmente não fecha. A tecnologia, por si só, não carrega uma natureza boa ou má – ela adquire o poder que lhe damos, dependendo de como escolhemos usá-la. E por isso é fundamental integrar diferentes perspectivas epistemológicas para lidar com os problemas urgentes que enfrentamos hoje.
Uma das grandes oportunidades do Instituto é fomentar uma interação mais transversal entre os departamentos. Já existem fóruns de discussão, mas muitas dessas iniciativas são isoladas e limitadas a suas próprias áreas. Precisamos de um espaço que facilite a comunicação e colaboração entre diferentes disciplinas e comunidades. Com o Instituto, temos a possibilidade de trabalhar de forma integrada, criando agora uma “passarela” que ligará os centros e facilitará essa integração. Estamos gerando uma infraestrutura física que, potencialmente, permitirá uma colaboração mais estreita. O próximo passo é atravessar essa “passarela” e consolidar a conexão entre os diferentes centros de conhecimento.
O que realmente me atraiu para o projeto foi a grande oportunidade de participar de um instituto que é uma iniciativa transversal e multidisciplinar dentro da Universidade. Muitas vezes, associamos multidisciplinaridade a situações como, por exemplo, dois professores de um mesmo departamento se unindo para resolver um problema, ou a combinação de três disciplinas que abordam a matemática sob perspectivas diferentes. O ambiente da PUC-Rio facilita as interações entre professores de diferentes departamentos e áreas do conhecimento.
Quais os desafios para a implementação da graduação em Inteligência Artificial?
A experiência de 14 anos trabalhando com inteligência artificial, em diversos segmentos, me mostrou que os problemas mais desafiadores que enfrentamos não podem ser resolvidos sem uma abordagem multidisciplinar. Vale ressaltar que essa multidisciplinaridade não exige que uma única pessoa possua habilidades em todas as áreas. Na verdade, trata-se de um trabalho em equipe, onde o desafio está em fazer essas diferentes perspectivas colaborarem de maneira eficaz e integrada para encontrar soluções mais completas e inovadoras.
Em outra frente, temos como desafiadora a questão da velocidade das mudanças. Ao longo do tempo, desde quando fui aluno de graduação, ocorreram diversas adaptações curriculares, em todos os cursos, para atender às demandas de curto prazo. Essas mudanças são essenciais para garantir a relevância da Universidade, mas o verdadeiro desafio é encontrar o equilíbrio entre a agilidade na adaptação e a preservação de fundamentos perenes. O mundo atual, com sua pressa e imediatismo, exige essa flexibilidade, mas também exige que não percamos de vista as bases sólidas que sustentam o conhecimento a longo prazo. O equilíbrio, embora já fosse um desafio antes, tornou-se ainda mais complexo diante da velocidade com que as mudanças ocorrem hoje em dia.
Vivemos em uma geração em que o mercado de trabalho não é mais um mercado tradicional, e muitos dos estudantes que chegam até nós, se não enxergarem um valor imediato no que estão aprendendo, tendem a se desligar e perder o interesse rapidamente. Mas mantenho uma perspectiva otimista. A responsabilidade de moldar esse processo é nossa, e precisamos ser proativos em como abordamos a questão. Alguns anos atrás, muitos criticavam a juventude por se comunicar apenas por chats, sem elaborar frases completas. Curiosamente, a tecnologia do ChatGPT exige exatamente o oposto: ela nos obriga a formular frases claras e completas para que possamos alcançar melhores resultados. Hoje, a tecnologia valoriza a arte de fazer boas perguntas. Mais importante do que a resposta em si, é saber como fazer a pergunta certa para chegar ao resultado desejado.
Qual a importância do Instituto Behring de Inteligência Artificial para a PUC-Rio?
O momento atual exige que a PUC-Rio tenha uma iniciativa sólida voltada para o estudo da Inteligência Artificial, assim como todas as grandes universidades ao redor do mundo estão fazendo. Ter uma estratégia clara em torno desse tema é essencial, pois enfrentamos desafios tecnológicos significativos e precisamos avançar com a tecnologia para superar os obstáculos que a sociedade tem enfrentado.
A metáfora do martelo e do prego ilustra bem esse cenário: quem tem um martelo tende a ver tudo ao seu redor como um prego, ou seja, se tenho uma ferramenta, vou tentar usá-la para resolver qualquer problema. Essa analogia é pertinente porque, muitas vezes, nossa comunidade tecnocientífica se encanta pela tecnologia em si, pelo “martelo”, e acaba esquecendo que o objetivo final é resolver problemas reais, tais quais “como colocar o prego na parede”.
Um profissional formado na PUC-Rio é preparado para se adaptar com mais facilidade a diferentes ambientes, pois entende que existem inúmeros problemas interessantes e desafiadores. Entre esses problemas, alguns têm um valor adicional: são difíceis, bonitos e, além disso, relevantes. Relevantes porque trazem impacto real, geram valor para alguém e atraem o interesse de pessoas que podem apoiar sua realização. A verdadeira questão é essa: como resolver problemas que, além de desafiadores, sejam relevantes para a sociedade.
É possível apontar os rumos da inteligência artificial?
Hoje, estou muito mais preocupado com a inteligência natural do que com a inteligência artificial. Observamos que nossa atuação em diversas áreas tem se deteriorado ao longo do tempo, e a IA nos obriga a repensar nosso papel em diferentes disciplinas. A universidade é o espaço ideal para promover essas discussões, com a urgência e profundidade que o momento exige. Se continuarmos a agir como no passado, corremos o risco de ficar para trás. Não há, porém, uma resposta simples para isso; trata-se de um problema relacionado à inteligência humana, não à inteligência artificial. E, apesar da velocidade das inovações tecnológicas, muitos dos problemas que enfrentamos hoje têm raízes profundas e já vêm sendo plantados há muito tempo.
Existem pesquisas e iniciativas extremamente interessantes no uso de IA na educação, desde o ensino básico até o ensino médio. Esses trabalhos mostram o enorme potencial da IA para democratizar o acesso ao conhecimento em larga escala. Quando utilizadas de maneira adequada, as ferramentas de IA podem resultar em projetos inovadores e impactantes. A inteligência artificial na educação é um dos temas que pretendemos explorar no Instituto, com o objetivo de estimular essa discussão. Isso é especialmente importante, pois, para uma grande parte da sociedade, a IA ainda parece ficção científica.
Nesse sentido, qual o papel das universidades no uso responsável da IA?
Algo fascinante dessas tecnologias é a sua capacidade de proporcionar escala. Embora a escalabilidade possa ser usada de forma negativa, ela também oferece um potencial enorme para transformação positiva. Entretanto, é fundamental lembrar que, apesar da velocidade com que se desenvolvem, as IAs ainda não têm autonomia total – elas dependem de como nós, como sociedade, escolhemos orientá-las e aplicá-las.
É, portanto, uma obrigação, uma oportunidade e uma necessidade que a PUC-Rio se posicione claramente nesse campo. Se uma universidade de excelência não se posicionar na vanguarda de áreas como a Inteligência Artificial, ela corre o risco de ser ultrapassada, tanto em termos de relevância na pesquisa quanto na qualidade dos métodos de ensino e investigação. Não basta apenas definir limites sobre como essas tecnologias não devem ser usadas. É igualmente importante orientar sobre como podem e devem ser aplicadas de maneira ética e construtiva, guiando o uso responsável dessa poderosa ferramenta.
Fonte:PUC-RIO