Artigo de estreia – Sobre coerência e propósito nos espaços de arte

É com grande entusiasmo que ocupo este espaço na PUC News, a convite da VP de Marketing da PUC Angels, Cris Lindner. Sou Sandra de Angelis, jornalista desde 1984, e minha trajetória na mídia começou na Editora Abril, passando pela Gazeta Mercantil, até a fundação da minha agência de comunicação corporativa, a Edge Mídia. Minha geração enfrentou o desafio de transitar do analógico para o digital, e agora, na era da IA, seguimos inovando.

Desde que discutimos o conceito de Open Branding, percebemos como a descentralização da produção artística pode ser uma solução poderosa para escalar marcas de impacto e alto valor. Esse entendimento tem sido um pilar em nossas ações conjuntas, especialmente na criação do Programa Disruptivos Culturais. Essa iniciativa visa promover a arte, bem como impulsionar marcas que compartilham desse compromisso com a inovação de impacto.

Um exemplo marcante desse projeto foi a exposição de arte na Free Zone da COP 30, em Belém do Pará, que atraiu mais de 40 mil visitantes e a PUC angels nos apoiou com a ilustre presença de sua co-Fundadora Maria Eduarda. Essa experiência destacou a importância de conectar arte e marcas de maneira significativa, reforçando nossa missão de preservar a arte brasileira e os espaços artísticos. O mecenato é crucial para garantir que nossa rica herança cultural não se perca em meio às demandas midiáticas.

Estou animada com as possibilidades que surgem desse diálogo e parceria com o Marketing da PUC angels, que continua a transformar a maneira como produzimos e apoiamos a comunicação de marcas de impacto. Juntas, estamos moldando o futuro da arte e da inovação no Brasil.

Sobre coerência e propósito nos espaços de arte – O artigo

A nova gestão do Theatro Municipal de São Paulo não seria um assunto popular. Longe de ser um desses “hypes” das redes sociais, além de uma programação local, ocupa um recorte erudito das artes, que infelizmente não faz parte das áreas de interesse da maioria da população paulistana. A grade de programação do teatro não é páreo, por exemplo, para o calendário de jogos da Copa do Mundo, e tudo bem. Entendo que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Sou seguidora de uma jornalista chamada MadeleineLacsko e dia desses assisti a um vídeo dela que dizia respeito à nova gestão do Theatro Municipal, onde ela defendia e enaltecia a coerência de propósito que fora anunciada pela empresa que ganhou a concorrência do solene espaço artístico paulistano. Daí fui pesquisar sobre e olhe só o que eu encontrei: uma entrevista de Edilson Ventureli, CEO do Instituto Baccarelli, que agora assume a gestão do teatro, e me chamou a atenção justamente pela sua obviedade – “manter a programação musical anunciada para 2026, e preservar sua essência, considerando apenas possíveis ajustes operacionais, sem comprometer o número de produções e respeitando a tradição das obras. As aspas que coroaram a entrevista dizem: “Eu não vou mudar texto, música de ópera, eu não vou trocar momentos de lugar. Isso não significa não inovar, não trazer o moderno, mas, sim, respeitar as obras como elas foram escritas e pensadas. Não há passo para trás, não há retrocesso”.

Ventureli enfatiza a importância de uma curadoria musical coerente e com propósito do teatro, que valoriza a excelência artística e o respeito ao ser humano. Embora a gestão busque inovação, a ideia é respeitar a visão original dos compositores, sem alterar textos ou momentos das obras.

O propósito da arte

Outro questionamento que ganhou minha atenção, aliás, por meio da mesma jornalista, foi o encerramento antecipado de uma exposição sob a temática do funk, no Museu da Língua Portuguesa. A exposição teria data de encerramento em agosto, mas quando a mídia começou a questionar os conteúdos da exposição e os propósitos intrínsecos, outra obviedade emergia. Aqueles conteúdos não eram condizentes com as premissas próprias da arte e daquele museu, mas houve quem atribuísse a decisão de encerramento precoce como efeito de censura e moralismo.

No ano passado criamos um projeto chamado Disruptivos Culturais, cujo propósito é furar a bolha midiática das “trends” e dos “hits” que pairam sobre a produção de conteúdos artísticos independentes, mantendo o DNA artístico, não midiático como lastro. Na matriz do projeto estão 50 anos de atividade nas mídias e um “garimpo” ininterrupto de expressões artísticas independentes que, no Brasil, brotam quase que por geração espontânea. Algo em busca de uma obviedade que enxerguei nas falas de Ventureli, bem como as motivações de encerramento antecipado da exposição.

Narrativas contra cada um dos exemplos citados aqui podem surgir dos quatro cantos do planeta, só não podem derrubar o lastro do propósito de cada iniciativa. O mundo é grande o suficiente para ter execuções eruditas modernizadas por releituras diversas. Nele, cabem também, exposições sobre funk, tecnobrega, drogas ou rock´n roll, mas é importante que cada uma dessas expressões ocupe seu lugar, não valendo impor suas mensagens em ambientes não condizentes com seus conteúdos.

Virada Cultural de São Paulo

Enxerguei desvios de propósito na grade de atividades da Virada Cultural de São Paulo, realizada em maio/2026, onde mais dos mesmos “trends” e “hits” foram contemplados, com cachês individuais beirando cifras de R$ 700 mil, enquanto pelo menos 5000 artistas independentes que conseguiram se inscrever no edital prévio da Virada sequer receberam um protocolo de suas inscrições e cujos critérios de seleção permanecem guardados em alguma caixa preta.  Sim, mais um caso de desvio de propósito, pois o DNA da Virada seria a contemplação da arte independente, inovadora e transparente.

O resgate do propósito como premissa, especialmente quando se trata da arte patrocinada pelo dinheiro público, é uma premência e merece nossa atenção. Em um país como o Brasil, se não houver um mecenato permanente e criterioso, as autênticas expressões artísticas morrerão à míngua. Cada centavo aportado para essa finalidade é sagrado e deve ser respeitado pelos gestores e submetido integralmente aos propósitos de cada espaço de arte.  Onde não há esse respeito, é desvio de propósito. E a busca pelo propósito em cada contexto não é censura, é coerência.

Referências
https://concerto.com.br/noticias/entrevista/theatro-municipal-de-sao-paulo-vai-manter-programacao-fabio-mechetti-sera

https://www.instagram.com/p/DZfrLyRgVY_

https://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2026/06/03/curadora-da-mostra-funk-um-grito-de-ousadia-e-liberdade-cita-censura-apos-evento-ser-encerrado-antes-da-data.ghtml

Sandra de Angelis
https://www.linkedin.com/in/sandradeangelis/
sandra@edgemidia.com.br
11 – 99911-3798

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