Estamos transformando o discurso sobre governança em um produto de marketing?

Não faltam modelos para explicar a governança. Faltam organizações dispostas a praticá-la.

Por Enio Klein

Vou começar com uma confissão. Este é mais um texto sobre governança de IA. E, ironicamente, talvez acabe contribuindo para um problema que me incomoda cada vez mais: fala-se muito sobre governança e governa-se muito pouco.

Abro o LinkedIn e encontro uma enxurrada de diagramas impecáveis, “7 regras de ouro”, “10 pilares”, “5 passos”, matrizes coloridas, checklists, frameworks e infográficos cuidadosamente produzidos. A impressão é de que basta mais um quadro bem desenhado para que a governança finalmente aconteça. Não vai.

Frameworks não governam organizações. Diagramas não assumem responsabilidade. As regras de ouro não impedem uma decisão ruim. E um carrossel bonito jamais substituiu liderança.

Tenho a sensação de que criamos uma indústria que vive de explicar governança sem assumir o risco de dizer o que realmente precisa ser feito. Porque isso dá mais trabalho.

É muito mais confortável publicar mais um mapa de maturidade do que dizer a um conselho consultivo ou de administração que talvez nem saiba quais decisões na empresa já estão sendo influenciadas pela IA. É muito mais elegante desenhar uma matriz de riscos do que perguntar quem é responsável pela qualidade dos dados que alimentam um algoritmo. É muito mais seguro falar em princípios do que afirmar que nenhuma IA deveria entrar em produção sem que exista um responsável claramente identificado pelas decisões que ela influencia.

Enquanto discutimos conceitos, as organizações seguem fazendo o que sempre fizeram: compram tecnologia antes de organizar os dados, automatizam processos que nunca entenderam direito e descobrem a necessidade de governança apenas quando surge um incidente, uma ação judicial ou um regulador. O curioso é que a solução não exige uma nova metodologia. Exige gestão.

Na próxima reunião de diretoria, faça quatro perguntas:

  • Quais decisões hoje recebem influência de IA?
  • Quais dados sustentam essas decisões?
  • Quem é responsável pela qualidade desses dados?
  • Quem tem autoridade para interromper ou revisar uma decisão produzida por um sistema?

Se essas respostas não existirem, esqueça o próximo framework. Você ainda não tem governança. Estamos discutindo intensamente o que a IA será capaz de fazer. Talvez esteja na hora de discutir, com a mesma intensidade, as condições sob as quais ela deveria operar:

  • Comece pelas decisões;
  • Depois governe os dados;
  • Só então implante a IA,

Porque governança não é um conjunto de slides. É a disciplina de impedir que a velocidade da tecnologia seja maior do que a capacidade da organização de exercer responsabilidade.

Se você chegou até aqui e a próxima coisa que vai fazer é compartilhar este texto, você é exatamente o problema que ele descreve. Feche o LinkedIn. Vá fazer as perguntas.

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